Entre sonhos e literatura: minha experiência com o fantasma de Guimarães Rosa
Como a presença de Guimarães Rosa influenciou minha escrita e trouxe reflexões literárias.
Por Francisco Torres · 26 de ago. de 2026, 07:01

Um encontro inusitado entre literatura e mistério
A vida de quem se dedica à escrita por vezes cruza limites entre o real e o imaginário. Minhas experiências com fantasmas foram raras, mas marcantes — especialmente a que vivi no apartamento onde **Guimarães Rosa** criou algumas das páginas mais emblemáticas da literatura brasileira, no **Rio de Janeiro**.
Desde criança, presenciei situações inexplicáveis: uma senhora, cujo nome desconheço, visitava meus sonhos com conselhos sempre pertinentes. Em momentos decisivos da minha vida, como uma cirurgia ou uma gravidez, ela trazia palavras de conforto e orientação. Quando acordei certa vez, senti sua presença física: cabelos longos, saia ampla e um olhar protetor. Foi a primeira vez que a fronteira entre sonho e vigília se rompeu.
A atmosfera do apartamento de Guimarães Rosa
No entanto, minha passagem pelo apartamento de **Guimarães Rosa** trouxe uma dimensão nova ao conceito de assombração. Fui recebida pela neta do escritor, **Vera Tess**, que mantém o local preservado exatamente como era quando Rosa viveu ali. O mobiliário embutido, presente em tantas fotos históricas, permanece, assim como o ambiente carregado de história e criatividade.
Logo que entrei, dirigi-me até o escritório onde Rosa escreveu e onde, infelizmente, faleceu. O local ainda exala um clima de criação literária intensa e certa solenidade. Uma mesa nova ocupa o lugar da antiga escrivaninha, testemunha silenciosa dos embates do autor com seus próprios "demônios" enquanto escrevia o célebre **'Grande Sertão: Veredas'**.
Foi ali que, de maneira surpreendente, observei a silhueta de um homem de pijama azul adentrando o quarto onde havia deixado minha mala. Relatei o episódio à Vera, que confirmou: o avô preferia pijamas dessa cor e aquele cômodo, embora não fosse seu dormitório, foi onde ocorreu seu velório. Ela ainda pediu, em tom afetuoso, que, se Rosa voltasse a aparecer, eu dissesse que ela sentia saudades e mandava um beijo.
Inspiração literária e reflexões pessoais
A experiência mexeu comigo. Sempre sonhei com Guimarães Rosa, inclusive aprendendo com ele a fazer bolo de laranja, meu favorito. Dessa vez, sua presença parecia extrapolar o universo onírico, tornando-se quase palpável. No apartamento, decidi o início do meu novo romance, 'Delírio San Pedro', um livro sobre loucura — tema que encontrou solo fértil naquele ambiente carregado de memórias e devaneios.
Entendi que, para seguir adiante, talvez precise retornar. Reverenciar aquele solo sagrado, comprar o tal bolo de laranja, passar um café e, quem sabe, receber mais uma visita inspiradora. Percebi, mais do que nunca, que a vereda da literatura frequentemente se cruza com o inexplicável.
Experiências como essa nos lembram que o legado de nossos maiores escritores segue vivo — nas palavras, nos espaços e, talvez, nas presenças sutis que só os atentos conseguem notar.
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