São Paulo integra mega estudo global que revela 77% de vírus inéditos no ambiente urbano
Pesquisa internacional mapeia quase 55 mil espécies de vírus de RNA, com forte participação da capital paulista.
Por Verónica Medina · 26 de ago. de 2026, 07:21

São Paulo na linha de frente da pesquisa sobre vírus ambientais
A cidade de **São Paulo** teve papel central em um levantamento internacional que ampliou o entendimento científico sobre a diversidade de vírus presentes em áreas urbanas. O estudo analisou quase 3 mil amostras coletadas em 102 cidades de 31 países, incluindo várias da capital paulista, e catalogou cerca de 54.945 espécies de vírus de RNA. O dado mais impressionante é que aproximadamente 77% dessas espécies eram inéditas para a ciência, não constando antes em bancos de dados internacionais.
Contexto da pesquisa: investigação sem alvo específico
A pesquisa foi publicada pela renomada revista **Nature Communications** e resultou na criação do **UPVAtlas**, catálogo voltado para vírus encontrados em ambientes urbanos e periurbanos. O diferencial do trabalho está na abordagem: em vez de buscar somente vírus associados a doenças já conhecidas, os cientistas optaram por analisar o material genético do ambiente como um todo. Amostras foram coletadas em diferentes locais como hospitais, estações de transporte, bancos, superfícies de uso comum, solo, água e esgoto.
Segundo os autores, entre eles o professor Antônio Pedro Camargo do **Instituto de Química da USP**, o método metatranscriptômico permitiu sequenciar todas as moléculas de RNA das amostras, revelando uma miríade de vírus ainda não mapeados. Para filtrar e identificar os vírus em meio aos milhões de fragmentos genéticos, foi utilizada a ferramenta bioinformática **geNomad**, desenvolvida no Brasil.
Novos grupos de vírus e possíveis conexões com saúde
A análise revelou grupos de vírus significativamente distintos dos conhecidos, sugerindo até a existência de dois novos filos e uma nova classe de vírus de RNA. Essas classificações, por ora preliminares, são baseadas nos resultados computacionais da pesquisa.
Apesar do volume expressivo de vírus detectados, os pesquisadores enfatizam que isso não se traduz automaticamente em novas ameaças à saúde. Cerca de um terço dos vírus teve possível hospedeiro identificado: 60 apresentaram alta probabilidade de infectar humanos e outros 47, mamíferos. O levantamento identificou ainda 166 bacteriófagos, que atacam bactérias — o que pode ser de interesse para o combate a infecções bacterianas.
Diversidade viral varia conforme tipo de ambiente urbano
Outro ponto observado foi a diferença na diversidade de vírus entre os ambientes analisados. O solo e os sedimentos demonstraram maior diversidade viral, enquanto superfícies urbanas apresentaram variação menor. O esgoto, por sua vez, destacou-se como um dos locais com maior riqueza de espécies virais.
Importância para a ciência, vigilância e saúde pública
De acordo com os cientistas, o **UPVAtlas** representa um passo fundamental para o monitoramento de comunidades virais em cidades ao redor do mundo. A comparação entre diferentes regiões e tipos de ambiente pode ajudar a entender como a diversidade de vírus se comporta e evolui ao longo do tempo, inclusive antecipando possíveis riscos futuros para a saúde pública.
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