O centro de São Paulo passa por uma transformação significativa graças ao avanço dos projetos de retrofit, impulsionados por robustos subsídios da Prefeitura de São Paulo. Atualmente, 49 edifícios encontram-se em processo de requalificação, com 31 já aprovados para receber subvenção econômica — programa que destina até 25% do valor da obra em recursos públicos.
Movimento de revitalização imobiliária
Desde 2023, mais de R$ 400 milhões foram aportados por editais municipais, atraindo empresas e estimulando o ressurgimento do mercado imobiliário central. Entre as companhias mais beneficiadas está a Citas, que obteve mais de R$ 13 milhões em três editais distintos. O emblemático Edifício Taquari, já próximo à conclusão, foi o primeiro retrofit subsidiado pela empresa, recebendo pouco mais de R$ 1 milhão do programa. Hoje, oferece 96 apartamentos residenciais a partir de R$ 1.890 de aluguel, revitalizando um prédio que estava praticamente desocupado após a pandemia.
“Este projeto já estava em andamento quando surgiu o edital, e o subsídio foi fundamental para viabilizar a obra”, destaca Isadora Rebouças, CEO da Citas.
Impacto urbano e segurança
De acordo com Rafael D’Andrea, urbanista e diretor da Casa da Arquitetura Moderna Paulista (CAMP), a presença constante de novos moradores tende a aumentar a sensação de segurança e dinamismo no centro: “A volta das pessoas para a região traz movimento, fomenta o comércio e favorece a permanência no bairro, mudando a percepção de insegurança”. Um estudo da plataforma Rhino corrobora esse cenário, mostrando alta de 20% ao mês nas rotas de carros particulares com destino aos bares e casas noturnas locais.
Outro destaque fica para a Ilion Partners, que já soma mais de R$ 3 milhões em subsídios e requalificou o antigo edifício Dona Marcha, dos anos 1960, agora com 86 apartamentos para locação (valores entre R$ 1,9 mil e R$ 3 mil). “Além da rentabilidade, nosso objetivo é resgatar a memória valorizando o mínimo de mudanças estruturais”, afirma Maxime Barkatz, fundador da incorporadora.
Inclusão, desafios e gentrificação
A requalificação atinge também outros marcos, como o Edifício Renata Sampaio Ferreira e Edifício H. Lara. A Planta Inc., responsável por ambos, prevê mais de R$ 12 milhões em incentivos para seus projetos, que antecipam centenas de unidades de locação permanente no centro. “Nosso foco é quem trabalha na região e precisa de moradia acessível perto do emprego”, ressalta Guil Blanche, fundador da Planta Inc.
Apesar dos ganhos urbanísticos e econômicos, especialistas alertam para a necessidade de equilibrar os benefícios do retrofit com a diversidade social. D’Andrea destaca: “É preciso garantir que a requalificação seja também instrumento de acesso à moradia, evitando que parte considerável das unidades vá para locação de curta temporada, favorecendo apenas a valorização imobiliária”. A crítica se estende para o risco de gentrificação e aumento de preços, distanciando população de baixa renda do centro tradicional.
Próximos passos e debate público
Enquanto novas etapas de projetos seguem em andamento e a oferta de moradia aumenta, o desafio é modelar políticas que equilibrem investimentos privados, proteção do patrimônio e promoção da diversidade social. O debate sobre os impactos do retrofit na dinâmica urbana de São Paulo seguirá mobilizando poder público, investidores e movimentos por habitação.
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