Quilombo na zona sul resiste e mantém tradições culturais
O Quilombo Urbano Ferreira Diniz, localizado no tradicional bairro da Glória, zona sul do Rio de Janeiro, tornou-se um verdadeiro símbolo de resistência comunitária e cultural. Esta comunidade, formada por 14 famílias, foi reconhecida e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que ampliou a proteção para todo o terreno, incluindo quintal e casarões, preservando não apenas estruturas, mas também modos de vida, saberes e tradições.
O papel da feijoada da Tia Cida
Uma das principais atrações do quilombo é a famosa feijoada da Tia Cida. Conhecida oficialmente como Maria Aparecida Ferreira, ela é referência na gastronomia carioca. Às sextas-feiras, o quintal se transforma em um ponto de encontro de amantes da culinária e vizinhos, fortalecendo os laços comunitários e proporcionando renda para as famílias locais. O evento vai além da comida: é celebração de memória, ancestralidade e solidariedade, reunindo quilombolas e visitantes em momentos de confraternização e reflexão sobre a importância histórica do local.
Tombamento e proteção do espaço
O tombamento pelo Iphan representa um marco: foi o primeiro quilombo urbano do Rio de Janeiro a receber esse reconhecimento. O órgão destacou que a medida não é apenas jurídica, mas também territorial, simbólica e reparatória. “O tombamento afirma publicamente a relevância histórica e social da presença negra naquele território urbano”, destacou Patricia Corrêa, superintendente do Iphan no Rio. A decisão fortalece a segurança contra a especulação imobiliária no bairro, reconhece como bem coletivo o uso do espaço e combate o apagamento da memória negra na cidade.
Comunidade viva e ativa
O coração do Quilombo Ferreira Diniz pulsa em seu quintal, local onde crianças brincam, moradores organizam festas populares, práticas religiosas como Folia de Reis e São Jorge, rodas de capoeira e aniversários. O casarão neoclássico abriga subdivisões de moradia, mas aguarda reformas estruturais. A expectativa é que, com o tombamento, a comunidade avance para a regularização fundiária e para o reconhecimento de posse coletiva pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), garantindo assim proteção contra desapropriações e expulsões.
Ensino, identidade e futuro
O exemplo do Quilombo Ferreira Diniz vai além da tradição culinária. Segundo a professora Ana Carmen Amorim Jara Casco, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a comunidade traz lições valiosas sobre solidariedade, identidade, pertencimento e resistência. “Aqui, uma criança é cuidada por todos. Isso ensina outras formas de convívio, de cuidado coletivo”, afirma. A historiadora Érida Ferreira, presidenta da Associação da Comunidade, destaca que proteger o quilombo é também preservar a diversidade e garantir futuro mais justo.
O Quilombo Ferreira Diniz segue firme como referência de resistência negra no Rio, inspirando debates sobre inclusão, memória e direitos urbanos. E, claro, recebendo semanalmente quem deseja saborear a tradicional feijoada da Tia Cida e se conectar com um Brasil plural e vivo.
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