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Cultura

Por que o sabiá-laranjeira resiste em viver em São Paulo?

Crônica explora os desafios e escolhas do sabiá na metrópole paulistana.

Por Fernando Ríos · 14 de ago. de 2026, 06:35

A vida do sabiá-laranjeira em São Paulo

O cotidiano na cidade grande não é fácil nem para quem voa. O **sabiá-laranjeira**, que há anos circula entre bairros como Pacaembu e Perdizes, compartilha sua visão afiada – ou melhor, bicada – sobre os obstáculos enfrentados ao escolher São Paulo como casa.

Amigos pardais já seguiram para cidades de menor porte, como Jundiaí, com mais árvores e menos fios de eletricidade. Aqui, restam poucos galhos. **Enel** e Prefeitura de São Paulo, cada vez que falta energia, culpam as árvores e fazem podas drásticas, sumindo com boa parte dos lugares seguros para os pássaros.

Desafios urbanos para os passarinhos

Com o desmatamento urbano, o sabiá relata: "Ficar equilibrado em fios elétricos não é simples – exige equilíbrio, força e muito abdômen, quase um Pilates". O arame machuca as patas, tornando insustentável o descanso.

Mas não para por aí. O crescimento de prédios e carros toma o espaço onde antes havia verde. Nos Jardins, árvores cedem lugar a edifícios e veículos – moradores priorizam estacionamentos à natureza.

A música, outra paixão do sabiá, também encontra resistência: shows noturnos e barulhos que vão além das dez da noite. Antes, o estádio vizinho recebia jogos de futebol e visitantes como o quero-quero; agora, os shows invadem o silêncio noturno e terminam com fogos barulhentos.

Questões ambientais e convivência na metrópole

A cidade ainda oferece alimentos – moradores deixam cascas de frutas ou restos de churrasco (com efeito duvidoso no estômago dos passarinhos!). O problema maior é a solidão: o canto do sabiá é muitas vezes abafado e há cada vez menos companhia de outros pássaros. "A cidade é rude para os humanos; imagine para quem é pequeno e canta alto", reflete o sabiá.

Ele também provoca: "Leis existem para limitar o barulho, mas os próprios humanos as ignoram – fiscalizam pouco e cumprem menos ainda. Ser político talvez seja melhor do que ser passarinho: muito espaço, pouco perigo".

Ficar ou voar — a escolha do sabiá

Diante dos desafios, o sabiá cogita migrar para lugares com mais verde, como Jureia ou Serra do Japi. Ainda assim, revela que ficar tem um sabor de responsabilidade: "Se todo mundo do bem for embora, a cidade fica para os gaviões, urubus e aves de rapina". Por isso, conclui: "Melhor um sabiá no fio do que um gavião no comando".

Este olhar do sabiá-laranjeira é um convite à reflexão sobre como tratamos nossos espaços urbanos e os outros moradores da cidade — mulheres, homens, pássaros e árvores.

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